terça-feira, 26 de maio de 2015

Cultura e Coisa e Tal com Alexandre Morais na Rádio Pajeú Imperdível! Todos os Dias adoooro!!!







A morte de Zé de Inácio

Zé de Inácio das bainhas
Muito mal criou bigode
Ajuntou umas vaquinhas
Seis bacurins e um bode
Partiu pra feira inda escuro
E achando fazer futuro
Como quem vende seu voto
Deu tudo por quase nada
Pegou toda bicharada
Trocou tudo numa moto

A moto que recebeu
Não tinha nem documento
O trocador só lhe deu
A cópia dum testamento
Dizendo que era um papel
Certo como há Deus no céu
Passado por seu patrão
Que antes de morrer deixou
E pro nome não passou
Por ser moto de leilão

Zé disse: “tá tudo bem
Pra que documentação
Pra um cabra que não tem
Carta de habilitação?
Não tenho e não vou ter
Porque não sei escrever
E minha vista é escura
Pra mim tudo quanto é placa
É mesmo que uma estaca
C’uma lata e uma figura”

“Só quero ver se é verdade
Que essa bichinha é baixeira
E se tem velocidade
Do tanto que o dono queira
Quero aprumá-la na estrada
E arranjar namorada
Do tanto que o povo conta
Vou virar noite mais ela
E dá rabeada nela
Da bichinha ficar tonta”

“Aliás me dê licença
Que já tô é atrasado
Vou a padim dá a bença
E chego já no mercado
O sol tá ficando quente
E um homem sem aguardente
É feito um padre sem fé
Eu faço o que quero agora
Sem me preocupar com hora
Que eu não ando mais a pé”

E deu logo uma arrancada
Que quase acaba c’a feira
Deixando a feira calada
Encoberta de poeira
Passou-se um dia, outro dia
E quando um mês já fazia
Chegou de Zé a notícia
De um modo indesejado
O seu caso foi narrado
Num programa de polícia

A notícia triste era
De Zé nem citava o nome
Mas é o que a família espera
De um ente que louco some
Falava de um acidente
Sem nenhum sobrevivente
E já esperando a dor
Faltaram outros assuntos
E todos choraram juntos
Escutando o locutor

“Um homem desconhecido
Foi levado ao hospital
Completamente ferido
Caído num matagal
Entre o corpo e a estrada
Uma moto incendiada
Que por certo era dele
Mas nada que comprovasse
Ou mesmo identificasse
Nem a moto e nem ele”

“Já na pista, bem ao centro
Havia um carro sem portas
Com sete pessoas dentro
E as sete estavam mortas
Quatro jovens, três crianças
Sete mortas esperanças
Dentro do carro, espremidas
Que se entregando ao transporte
Se entregaram para a morte
Dando à morte sete vidas”

“Das vítimas se quer se viu
Se tem nomes ou alcunhas
A polícia só ouviu
Relatos de testemunhas
Mais uma ou outra evidência
Da falta de consciência
E do ato irresponsável
Daqueles que conduziam
E imprudentes corriam
Com clima desfavorável”

“Foi possível conferir
Por tudo que foi colhido
Que antes de conduzir
Ambos haviam bebido
Que além da velocidade
Estava a capacidade
Do carro sem confiança
Dois passageiros passando
E ninguém estava usando
O cinto de segurança”

“Mais ainda o motorista
No celular conversava
E não desviava a vista
Do DVD que tocava
Como um animal silvestre
Não respeitava pedestre
Nem ciclista e nem carroça
Quase que numa bateu
E ainda um grito deu
Tira do meio essa joça”

“Já a moto em lado oposto
Corria feito um foguete
Estava o sol contra o rosto
E ele sem capacete
Mesmo indo numa reta
Não deu o sinal de seta
E acelerou com coragem
E sem prudência nenhuma
Erroneamente fez uma
Proibida ultrapassagem”

“E esta combinação
Dos erros que praticaram
Resultou numa explosão
Depois que os dois se chocaram
O choque foi tão dum jeito
Que nada pode ser feito
Por ambulância ou bombeiro
E mesmo quem assistiu
Correu pra salvar, mas viu
A morte chegar primeiro”

Aí Zé num riso franco
Calmamente se acordou
E um homem todo de branco
Em sua frente avistou
Disse: “doutor vi a morte
Mas acho que tive sorte
Me libere, já tô pronto
Para voltar pra estrada
Que eu não tô sentindo nada
Eu só tô um pouco tonto”

“Também um pouco esquecido
De tudo que aconteceu
Num carro mal dirigido
Veio um doido e em mim bateu
Fiz tudo para evitar
Mas não pude desviar
Pois o susto foi maior
Eu ia com tudo certo
E se eu não fosse esperto
Tinha sido bem pior”

“Então deixe eu ir embora
Ficar aqui para quê?
Tenho o que fazer lá fora
E minha moto cadê?
Tô sentindo sua falta
Vamos logo, me dê alta
Por favor me faça isto...”
O homem disse: “rapaz
Tenha calma, fique em paz
Estás bem, eu sou o Cristo”

“Lhe dei vida, inteligência
Uma família e um lar
Dei saúde, consciência
Coragem pra trabalhar
Deixei o mundo inteirinho
Pra você, devagarzinho
Aproveitar e viver
Mas você, inconsciente
Achando ruim o presente
Colocou tudo a perder”

“Agora não faça guerra
E nem queira reclamar
Você deixou lá na terra
Muita gente a lhe esperar
Eu fiz da moto um transporte
Para a vida e não pra morte
Mas vocês, irracionais
Desviam todos meus planos
Esquecem que são humanos
Pensam que são imortais”

“Regras não são por acaso
Existem pra ser seguidas
Quem delas faz pouco caso
Tira a própria e outras vidas
Agora não posso mais
Atender, você, rapaz
A vida não é romance
Que tem sempre um fim feliz
Se um triste fim você quis
Não posso dar-lhe outra chance”

Alexandre Morais, 19/05/15














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