
A morte de Zé de Inácio
Zé de
Inácio das bainhas
Muito
mal criou bigode
Ajuntou
umas vaquinhas
Seis bacurins
e um bode
Partiu
pra feira inda escuro
E
achando fazer futuro
Como
quem vende seu voto
Deu
tudo por quase nada
Pegou
toda bicharada
Trocou
tudo numa moto
A
moto que recebeu
Não
tinha nem documento
O
trocador só lhe deu
A
cópia dum testamento
Dizendo
que era um papel
Certo
como há Deus no céu
Passado
por seu patrão
Que
antes de morrer deixou
E pro
nome não passou
Por
ser moto de leilão
Zé disse:
“tá tudo bem
Pra
que documentação
Pra
um cabra que não tem
Carta
de habilitação?
Não
tenho e não vou ter
Porque
não sei escrever
E
minha vista é escura
Pra
mim tudo quanto é placa
É
mesmo que uma estaca
C’uma
lata e uma figura”
“Só
quero ver se é verdade
Que
essa bichinha é baixeira
E se
tem velocidade
Do
tanto que o dono queira
Quero
aprumá-la na estrada
E
arranjar namorada
Do
tanto que o povo conta
Vou
virar noite mais ela
E dá
rabeada nela
Da
bichinha ficar tonta”
“Aliás
me dê licença
Que
já tô é atrasado
Vou a
padim dá a bença
E
chego já no mercado
O sol
tá ficando quente
E um
homem sem aguardente
É
feito um padre sem fé
Eu
faço o que quero agora
Sem
me preocupar com hora
Que
eu não ando mais a pé”
E deu
logo uma arrancada
Que
quase acaba c’a feira
Deixando
a feira calada
Encoberta
de poeira
Passou-se
um dia, outro dia
E
quando um mês já fazia
Chegou
de Zé a notícia
De um
modo indesejado
O seu
caso foi narrado
Num
programa de polícia
A
notícia triste era
De Zé
nem citava o nome
Mas é
o que a família espera
De um
ente que louco some
Falava
de um acidente
Sem nenhum
sobrevivente
E já
esperando a dor
Faltaram
outros assuntos
E
todos choraram juntos
Escutando
o locutor
“Um
homem desconhecido
Foi
levado ao hospital
Completamente
ferido
Caído
num matagal
Entre
o corpo e a estrada
Uma
moto incendiada
Que
por certo era dele
Mas
nada que comprovasse
Ou
mesmo identificasse
Nem a
moto e nem ele”
“Já
na pista, bem ao centro
Havia
um carro sem portas
Com
sete pessoas dentro
E as
sete estavam mortas
Quatro
jovens, três crianças
Sete
mortas esperanças
Dentro
do carro, espremidas
Que
se entregando ao transporte
Se
entregaram para a morte
Dando
à morte sete vidas”
“Das
vítimas se quer se viu
Se
tem nomes ou alcunhas
A
polícia só ouviu
Relatos
de testemunhas
Mais
uma ou outra evidência
Da
falta de consciência
E do
ato irresponsável
Daqueles
que conduziam
E
imprudentes corriam
Com
clima desfavorável”
“Foi
possível conferir
Por
tudo que foi colhido
Que
antes de conduzir
Ambos
haviam bebido
Que
além da velocidade
Estava
a capacidade
Do
carro sem confiança
Dois passageiros
passando
E
ninguém estava usando
O cinto
de segurança”
“Mais
ainda o motorista
No
celular conversava
E não
desviava a vista
Do
DVD que tocava
Como
um animal silvestre
Não respeitava
pedestre
Nem
ciclista e nem carroça
Quase
que numa bateu
E
ainda um grito deu
Tira
do meio essa joça”
“Já a
moto em lado oposto
Corria
feito um foguete
Estava
o sol contra o rosto
E ele
sem capacete
Mesmo
indo numa reta
Não
deu o sinal de seta
E
acelerou com coragem
E sem
prudência nenhuma
Erroneamente
fez uma
Proibida
ultrapassagem”
“E
esta combinação
Dos
erros que praticaram
Resultou
numa explosão
Depois
que os dois se chocaram
O
choque foi tão dum jeito
Que
nada pode ser feito
Por
ambulância ou bombeiro
E
mesmo quem assistiu
Correu
pra salvar, mas viu
A morte
chegar primeiro”
Aí Zé
num riso franco
Calmamente
se acordou
E um
homem todo de branco
Em
sua frente avistou
Disse:
“doutor vi a morte
Mas
acho que tive sorte
Me
libere, já tô pronto
Para
voltar pra estrada
Que
eu não tô sentindo nada
Eu só
tô um pouco tonto”
“Também
um pouco esquecido
De
tudo que aconteceu
Num
carro mal dirigido
Veio
um doido e em mim bateu
Fiz
tudo para evitar
Mas
não pude desviar
Pois o
susto foi maior
Eu ia
com tudo certo
E se
eu não fosse esperto
Tinha
sido bem pior”
“Então
deixe eu ir embora
Ficar
aqui para quê?
Tenho
o que fazer lá fora
E
minha moto cadê?
Tô
sentindo sua falta
Vamos
logo, me dê alta
Por
favor me faça isto...”
O
homem disse: “rapaz
Tenha
calma, fique em paz
Estás
bem, eu sou o Cristo”
“Lhe
dei vida, inteligência
Uma
família e um lar
Dei
saúde, consciência
Coragem
pra trabalhar
Deixei
o mundo inteirinho
Pra
você, devagarzinho
Aproveitar
e viver
Mas
você, inconsciente
Achando
ruim o presente
Colocou
tudo a perder”
“Agora
não faça guerra
E nem
queira reclamar
Você
deixou lá na terra
Muita
gente a lhe esperar
Eu
fiz da moto um transporte
Para
a vida e não pra morte
Mas
vocês, irracionais
Desviam
todos meus planos
Esquecem
que são humanos
Pensam
que são imortais”
“Regras
não são por acaso
Existem
pra ser seguidas
Quem
delas faz pouco caso
Tira
a própria e outras vidas
Agora
não posso mais
Atender,
você, rapaz
A
vida não é romance
Que
tem sempre um fim feliz
Se um
triste fim você quis
Não
posso dar-lhe outra chance”
Alexandre
Morais, 19/05/15
Nenhum comentário:
Postar um comentário